domingo, 30 de novembro de 2014
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Uma vida feita poesia feita natureza
Ninguém é pai de um poema sem morrer.
MB
Não que ele
achasse, e sem rótulo (que ele não gostava e eu não gosto), mas a sua é uma
poesia que namora com o ambiente, dado o respirar da terra que mora em suas
escolhas para palavrear o que sentiu e pensou, viu e saboreou.
Morreu.
Foi. Legou-nos tudo o que “amarrou no poste” (A gente
nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Para não morrer, tem que amarrar o
tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste.). E tudo é tanto. E tudo é belo.
Desde o dia
13 de novembro de 2014 que o sentido da sua vida se completou. E o sentido da
sua poesia, esse, temo-lo aí, aqui mesmo. Basta ler. Sortudos – estendemos a
mão e a alcançamos os livros de Manoel de Barros.
Manoel de Barros, poeta brasileiro, 1916-2014,
amou ser neste planeta.
Por exemplo, assim de repente:
Esse
homem pois que apreciava as árvores de sons
amarelos-
ele se merejava sobre a carne dos muros
e
era ignorante como as águas.
Nunca
sabia direito qual o período necessário para
um
sapato ser árvore. Muito menos era capaz de
dizer
qual a quantidade de chuvas que uma pessoa
necessita
para que o lodo apareça em suas paredes.
De
modo que se fechou esse homem: na pedra: como
ostra:
frase por frase, ferida por ferida, musgo por musgo:
moda
um rio que secasse: até de nenhuma ave
ou
peixe. Até de nunca ou durante. E de ninguém
anterior. Moda nada.
_________
Borboleta
morre verde em seu olho sujo de pedra.
O
sapo é muito equilibrado pelas árvores.
Dorme
perante polens e floresce nos detritos.
Apalpa
bulbos com os seus dourados olhos.
Come
ovo de orvalho. Sabe que a lua
Tem
gosto de vaga-lume para as margaridas.
Precisa
muito de sempre
Passear
no chão. Aprende antro e estrelas.
(Tem
dia o sapo anda estrelamente!)
Moscas
são muito predominadas por ele.
Em
seu couro a manhã é sanguínea.
Espera
as falenas escorado em caules de pedra.
Limboso
é seu entardecer.
Tem
cios verdejantes em sua estagnação.
No
rosto a memória de um peixe.
De lama cria raízes e engole fiapos de
sol.
_______
-
Difícil de entender, me dizem, é a sua poesia, o
senhor
concorda?
-
Para entender nós temos dois caminhos: o da
sensibilidade
que é o entendimento do corpo; e o da
inteligência
que é o entendimento do espírito.
Eu
escrevo com o corpo
Poesia
não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma
árvore.
_______
Natureza
é fonte primordial?
-
Três coisas importantes eu conheço: lugar
apropriado
para um homem ser folha; pássaro que se
encontra
em situação de água; e lagarto verde que
canta
de noite na árvore vermelha. Natureza é uma
força
que inunda como os desertos. Que me enche
de
flores, calores, insetos, e me entorpece até a
paradeza
total dos reatores
Então
eu apodreço para a poesia
Em meu lavor se inclui o Paracleto.
_______
Água,
s. f.
Da
água é uma espécie de remanescente quem já
Incorreu
ou incorre em concha
Pessoas
que ouvem com a boca no chão seus
Rumores
dormidos pertencem das águas
Se
diz que no início eram somente elas
Depois
é que veio o murmúrio dos corgos para dar
Testemunho do nome de Deus
_______
Inseto,
s.m.
Indivíduo
com propensão a escória
Pessoa
que se adquire da umidade
Barata
pela qual alguém se vê
Quem
habita os próprios desvãos
Aqueles
a quem Deus gratificou com a sensualidade
(vide Dostoievski, Os irmãos Karamazov)
_______
Sol,
s. m.
Quem
tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem
assanha as formigas e os touros
Diz-se
que:
se
a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido
de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso
contém
_______
Pedra,
s. f.
Pequeno
sítio árido em que o lagarto de pernas
areientas
medra (como à beira de um livro)
Indivíduo
que tem nas ruínas prosperantes de sua
boca
avidez de raiz
Designa
o fim das águas e o restolho a que o homem
tende
Lugar
de uma pessoa haver musgo
Palavra
que certos poetas empregam para dar
concretude à solidão
_______
Árvore,
s. f.
Gente
que despetala
Possessão
de insetos
Aquilo
que ensina de chão
Diz-se
de alguém com resina e falenas
Algumas
pessoas em quem o desejo
é
capaz de irromper sobre o lábio
como se fosse a raiz de seu canto
_______
Que pessoa você é?
Maria José
Pessoa, 20 de novembro de 2014
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
IDENTIDADE E MORALIDADE
Um artigo de Nina Strohminger, psicóloga e neurocientista, sobre a relação identidade e consciência moral. Segundo a autora a construção e noção do eu baseia-se menos na diferença e na competição e mais na partilha e cooperação. «Quando escavamos fundo...encontramos uma constelação de capacidades morais...É isto que devemos cultivar ...se pretendemos realmente saber quem somos» shttp://aeon.co/magazine/philosophy/why-moral-character-is-the-key-to-personal-identity/
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
O PENSAMENTO NÃO É O CÉREBRO, O AMOR NÃO É A OXITOCINA, MAS INTUIÇÃO ÉTICA
UMA BRILHANTE REFLEXÃO QUE MERECE ATENÇÃO, PELAS QUESTÕES QUE SUSCITA PELAS PISTAS QUE ALINHAVA A ESSA ENIGMÁTICA PERGUNTA:
O QUE É O HOMEM?
http://www.humansandnature.org/mind---morality---arthur-zajonc-response-124.php
O QUE É O HOMEM?
http://www.humansandnature.org/mind---morality---arthur-zajonc-response-124.php
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
AMBIENTE- UM DESAFIO ÉTICO
UM EXCELENTE TEXTO DE ÉTICA AMBIENTAL DA NOSSA ASSOCIADA MAGDA CARVALHO
http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3199
http://repositorio.uac.pt/handle/10400.3/3199
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
A Medida do Sofrimento - para uma ética da alegria
In paths untrodden, (…)
Here by myself away from the clank of the world, (…)
Strong upon me the life that does not exhibit itself, yet contains all
the rest,
Resolv’d to sing (…).
Walt Whitman, Calamus
(tradução da
autora:)
Por caminhos
inexplorados, (…)
Aqui a sós
comigo, longe das grilhetas ruidosas do mundo, (…)
Sentindo em mim
a vida que não se exibe e contudo tudo contém,
Decidi-me a
cantar (…).
1.
Os animais
mostram-se muito mais satisfeitos com a mera existência do que nós.(…)
Ao animal
falta tanto a ansiedade como a esperança, porque a sua consciência se restringe
ao que lhe é
claramente evidente no presente: o animal é o presente encarnado.
Schopenhauer, Sobre
o Sofrimento do Mundo
Vive connosco
essa pergunta inicial e fatal: quem sou eu? Persegue-nos, acompanha-nos,
desdobra-se, transforma-se, adormece, para depois despertar ainda mais plena de
seiva.
Arranca-nos da
rotina; coloca-nos na rotina: sacode-nos, embala-nos, enlouquece-nos.
Quem sou eu?
Ensaiamos
soluções; praticamos respostas. E nunca nenhuma se mostra definitiva.
A dinâmica da
existência, o devir que nos constitui, bafeja-nos com a alegre e trágica
siamesa da vida que é a mudança. Heraclito bem o sabia. Outras são as águas ao
reentrarmos no rio. Quem sou eu é algo que vai na corrente, que tem que
aprender a nadar enquanto olha para si (tarefa impossível?), a querer-se
compreender.
E que dizer
desse rio?
E dos outros
seres que me acompanham?
2.
Se conseguirmos
alhearmo-nos das nossas preocupações imediatas e encarar o mundo como um todo e
o nosso lugar nele, veremos que existe algo absurdo na ideia de que as pessoas
têm dificuldade em encontrar por que viver. Afinal, há tanto que precisa ser
feito.
Peter Singer, Como
havemos de viver?
Seja eu quem
for, sou com os outros, em permanente relação, influência e condicionamento
recíprocos. Coabito a Terra em parceria que – sei – deve evitar o conflito, a
perturbação agressiva, o desequilíbrio que pode conduzir à morte – de espécies,
de habitats, de culturas, do mundo natural, da nossa casa, nosso ecossistema.
O que precisa
ser feito – por cada um de nós; por todos – é tomar consciência das
consequências dos nossos gestos, das nossas atitudes e ações.
Se
desconhecemos quem realmente somos (pois “um sentido nunca se completa enquanto
há vida”1, é contudo certo que “estamos sempre
dentro da nossa própria cabeça”2
e que “[o] que quer que
sejamos (…) é como uma espécie de codificação que (…) se vê convocada para uma
consciencialização, ou liberdade, que pode construir tudo outra vez.”3
A liberdade
permite o erro e permite também a sua correção, a aprendizagem dos caminhos que
conduzem ao bem ou ao mal, para que a escolha ocorra da forma desejada.
Desejável.
3.
[O] trabalho
a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias
que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os
céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Falar com os animais. (…)
Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço
para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras
presenças, re-equacionar as nossas vidas.
Anthony Weston, Is it too late?
Sou um ser
livre que deseja.
Desejo ter e
criar prazer. Ou bem-estar. Ou felicidade.
Para Stuart
Mill, felicidade é prazer e ausência de sofrimento. O princípio da maior
felicidade afirma que esta é aquela que dá mais prazer e menos sofrimento ao
maior número possível de pessoas.
Partindo deste
(ainda que discutível) pressuposto, perguntamos: será a felicidade apenas
atributo das pessoas humanas? Bem-estar e sofrimento são estados exclusivamente
humanos? Posso ser feliz se os outros – humanos e não-humanos – o não forem?
Viverei bem com o meu bem-estar se a meu lado alguém – pessoa ou (?) animal –
estiver em sofrimento? Não sou eu um ser-em-relação, permanentemente em
relação? E em relação, de que forma? Com base em que representação dos outros
seres e de mim mesma?
Lancemos a
provocação:
“Tanto para
Singer como para Regan, seriam pessoas todos os primatas e, tendencialmente,
todos os mamíferos com mais de um ano.”4
Sobre este tema-problema
(definição do conceito de “pessoa”, na sua eventual oposição ao conceito de
“animal”), apresentamos as seguintes posições (vide Anselmo Borges, Deus e o
Sentido da Existência, Gradiva, Lisboa, 2011, p. 54):
- o
predomínio, no Ocidente, da conceção kantiana que só reconhece direitos às
pessoas humanas;
- o movimento
animalista, que defende a tese de que há animais não humanos que são pessoas;
- a proposta
de um modelo de sociedade que reconhece a dignidade dos humanos mas tem em
atenção o valor dos animais;
o que requer
argumentar em torno da noção de “pessoa” que cada indivíduo ou corrente tiver
como sua. Assim, transcrevemos os seguintes excertos (in Anselmo Borges, op.
cit.pp. 54/5:), na tentativa de avançar na opção por um modelo justo de
conduta:
“Num texto
famoso de 1789, Jeremy Bentham inquiria: Qual é a característica que confere o
direito a uma consideração igualitária? E respondia, perguntando: «Será a
faculdade da razão ou, talvez, do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de
toda a comparação, um animal muito mais racional, assim como mais sociável, do
que um recém-nascido de um dia, uma semana, ou até de um mês. Mas suponhamos
que não era assim; de que serviria? A questão não é: consegue raciocinar?,
consegue falar?, mas: pode sofrer? »5
O chamado utilitarismo moral coloca o centro precisamente na
capacidade de sofrer e de sentir prazer. Para Peter Singer, defensor célebre
desta concepção, os seres sensíveis têm interesses, concretamente o interesse
do maior prazer possível e da menor dor possível, seguindo-se daí que, ao
contrário da concepção anterior, temos deveres directos para com todos os seres
capazes de sentir. (…) [E]screve textualmente, em ´´Etica Prática: «Devemos rejeitar a doutrina que
coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras
espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da
nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior que matar
um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem
pode vir a ser uma pessoa.»
(…) A filósofa
Adela Cortina, [em] Las fronteras de la persona, atravessa toda esta
problemática para defender a sua tese[:] A vida é valiosa por si mesma, mas
ainda mais a dos seres sensíveis, que têm a capacidade de sofrer e ter prazer.
Os animais têm um valor intrínseco e não meramente instrumental, havendo, por
isso, uma obrigação directa de não lhes causar dano.”
Retomando a
posição utilitarista, verificamos que Singer “postula a igualdade de
consideração ética para todos os seres sencientes (…). Assim, «se um ser sofre,
não pode haver nenhuma justificação moral para recusar ter o sofrimento em
consideração. […] Se um ser não tem capacidade de sofrer ou de sentir alegria
ou felicidade, não há nada6
para ser tido em conta.
Logo, o limite da senciência7
[…] é a única fronteira
defensável para a preocupação pelos interesses dos outros.»”8
É também de
referir que há “correntes biocêntricas e ecocêntricas da Ética Ambiental [que]
pretendem alargar ainda mais o critério de consideração moral, reportando-o,
respectivamente, ao fenómeno da vida e à noção de ecossistema.”9
Não posso,
portanto, viver bem com a dor espalhada e espelhada à minha volta. Não posso
aceitar senão o universal como princípio de conduta. O meu horizonte de ação é
o mundo e o universo de seres vivos que o habitam. A maior, a única felicidade
será a que, pelo menos, trouxer bem-estar a todos os entes sencientes. Aquela
que os resgatar da dor que possam sentir. A que permitir da melhor forma que a
diversidade de vida animal – e da Vida no seu todo - prolifere em natural
equilíbrio. Ao proposto imperativo de Hans Jonas10 que
proclama
«Age de tal
modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida
autenticamente humana sobre a Terra»,
acrescentaria,
responsabilizando-nos:
«Age de tal
modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida
autenticamente humana que promova a permanência da diversidade e a
felicidade das outras formas de vida sobre a Terra».
Por sobre as intransponíveis (porque constitutivas) situações
de sofrimento que qualquer forma de vida experiencia e saudavelmente procura
evitar, sobressairia, então, aplicado
este imperativo, o rosto da alegria, multifacetado na diversidade de vidas que
a Vida alberga.
4.
[A] medida do sofrimento
aumenta no homem muito mais que o gozo, o que é em grande parte realçado no
facto de, na realidade, ele saber o que é a morte, enquanto o animal [não
humano] apenas instintivamente foge dela sem de facto a conhecer e, portanto,
sem a ter em vista, o que o homem, pelo contrário, tem sempre presente.
Schopenhauer, Sobre o Sofrimento do Mundo
Como escapar
ao sofrimento, se ele nos constitui? (Não será ele a medida da ética?)
De que quero
eu, humana, ser salva (curada, rendida, remediada, resgatada)? Do sofrimento? Isso
conduzir-me-ia à impossibilidade de contactar com a realidade e à ignorância do
que seria a alegria.
Disso, não
quero ser salva (salvação exterior).
Disso, não
quero salvar-me (salvação interior).
Quero a vida
tal como ela é e eu posso melhorá-la (nós podemos melhorá-la).
Também não
quero a eternidade. Quero completar o sentido da minha existência passando pela
porta da morte (por essa porta que é a morte). Lá chegarei (lá, lugar; lá,
tempo, instante). Consciente disso, percebo que esta casa onde vivemos a prazo
é a minha e é a dos outros seres (os que já conheço e os que posso e quero vir
a conhecer).
Há tanto a
fazeri; há tanto a salvar, há muito a
resgatar da aniquilação a que o espécime humano condenou.
Há todo um
planeta a cuidar. É desejável mantê-lo, vivo e diverso. Pois a diversidade da
vida antecedeu-nos e coube-nos em herança – a proteger.
Para isso, há
que cuidar deste ser que vejo no passeio, ouço no ramo da árvore, liberto do
cativeiro do zoo, devolvo à vida natural que é a sua, prescindo de incluir na
minha alimentação, ajudo a perseverar no seu ser11.
Para tal, é forçoso enfrentar e ultrapassar as contradições
e incongruências da minha conduta diária. Com algum sofrimento? Decerto; mas
com muito, muito mais alegria.
Maria José Pessoa
novembro 2014
______________________
1 José Maurício de Carvalho,
http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistaestudosfilosoficos/art3-rev5.pdf
2 Valter Hugo Mãe, Crónica «Autobiografia Imaginária» - “Pessoas”, in Jornal
de Letras nº 1147, 17 a 30 de setembro de 2014
3 Ibidem
4 in Cristina Beckert, «Ética
Animal: uma contradição nos termos?», in
Cristina Beckert (org. e
coord.), ´´Etica Ambiental – uma ética para o futuro, Centro de Filosofia da
Universidade de Lisboa, 2003, nota 12, p.62
Proponho, para progredirmos na
investigação deste tema, a seguinte definição de pessoa: sujeito que age
de forma consciente, voluntária e intencional.
5 Sublinhado nosso
6 Não há mesmo nada?
7 Senciência: capacidade de sentir, de perceber os efeitos das impressões
sensíveis (ap. Dicionário Houaiss do Português Atual)
8 In Cristina Beckert, op. cit., pp. 56/7
9 Ibidem, nota 5 da p. 57
10 in Le Principe Responsabilité - Une Éthique pour la
Civilisation Technologique, Éditions du Cerf, pp. 30-31 (cit. in Contextos –
manual de Filosofia do 10º ano de escolaridade, Porto Editora, p. 162)
11 “Albert Schweitzer, filósofo alemão e Prémio Nobel
da Paz em 1952, considerava que todos os seres vivos possuíam uma will-to-live,
uma vontade de viver que merece ser respeitada e preservada. Na obra Civilization
and Ethics e referindo-se ao ser humano que vive o princípio da reverência
pela vida, Schweitzer (1923) escreveu:
Se ele sair à rua após uma tempestade e vir uma
minhoca que se perdeu, ele compreende que ela secará ao Sol se não alcançar
rapidamente terra húmida onde rastejar, e então ele remove-a das pedras
mortíferas e devolve-a à relva luxuriante. Se ele passar por um insecto que
caiu numa piscina, dá-se ao trabalho de lhe fazer chegar uma folha ou galho no
qual ele possa trepar e salvar-se.”
Manuel Magalhães-Sant’Ana,
“Consciência animal: para além dos vertebrados”, in Jornal de Ciências
Cognitivas da Sociedade Portuguesa de Ciências Cognitivas
(http://jcienciascognitivas.home.sapo.pt/09-03_santana.html
________
i Como
demonstração de que é possível fazer o tanto que precisa ser feito, sugiro a
consulta do relato de um projeto já concretizado, com excelentes resultados:
Ana Maria Bettencourt e Manuel Carvalho Gomes,
Nos Trilhos dos Açores – Educação para a Cidadania, Tinta da China, março de
2014.
sábado, 25 de outubro de 2014
ÉTICA E SUSTENTABILIDADE
ÉTICA E SUSTENTABILIDADE
ÉTICA E SUSTENTABILIDADEUM ARTIGO CONCISO E CLARO SOBRE ÉTICA E SUSTENTABILIDADE E SUAS RELAÇÕES.
ÉTICA E SUSTENTABILIDADEUM ARTIGO CONCISO E CLARO SOBRE ÉTICA E SUSTENTABILIDADE E SUAS RELAÇÕES.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
A HIPÓTESE DA BIOFILIA - EDUCAR COM A NATUREZA
A situação actual se, por um lado, mostra uma diminuição do contacto directo com a natureza de uma geração para outra (um estudo dirigido às mães revela que 71% delas brincaram ao ar livre na infância, contra os 31% das suas crianças que actualmente o fazem), por outro, indica uma progressiva habituação a ambientes ecologicamente degradados (rios poluídos, lixo, desaparecimento de áreas arborizadas na vizinhança) .
Com efeito, a sociedade urbana, hoje em dia, opta cada vez mais por formas de contacto simbólico com o ambiente natural, mediante o qual a criança configura representações formais e supervisionadas de uma natureza meramente virtual, num processo de «extinção» da experiência que parece correr em paralelo com a extinção global da biodiversidade. E, embora, um leque amplo de literatura especializada, escorada em investigações que contemplam inúmeros casos-de-estudo, aponte com reincidência os benefícios das afiliações positivas com a natureza no bem-estar cognitivo, psicológico, emocional e espiritual dos seres humanos, o progressivo empobrecimento e destruição do ambiente continua e concorre perigosamente para a destruição da maturação bem sucedida das aquisições e construções psicológicas da criança. Para o psicólogo Peter Kahn a resolução de toda a problemática implicada nesta «amnésia geracional» de ambientes naturais ricos e biodiversos começa, justamente, pela própria infância:
"Precisamos de comprometer as crianças numa educação ambiental construtivista a fim de maximizar a exploração e a interacção com a natureza que ainda existe ao seu alcance - insectos, animais domésticos, plantas, árvores, vento, chuva, solo, sol".
Kellert sublinha o facto de ainda não se conhecerem, na sua total amplitude e a longo-prazo, os efeitos na maturação psico-cognitiva infantil de quotidianos pobres em estímulos apropriados e com escassas oportunidades de experiência directa no mundo natural. Pergunta Kellert, poderá o reforço substancial dos contactos indirectos ou simbólicos com a natureza substituir e, até, compensar a perda acelerada dos arrabaldes naturais próximos das habitações? O extraordinário aumento da informação tecnológica que proporciona o acesso a realidades naturais distantes e exóticas, ou o constante aperfeiçoamento no design de zoos e similares tendo em vista recriacções ‘fidedignas’ do habitats originais constituirão uma vantagem geracional efectiva? Até agora, as investigações que procuram dar resposta a estas questões têm mostrado que os efeitos positivos no conhecimento pessoal das realidades naturais experienciadas de forma indirecta são transitórios e raramente contribuem de forma significativa para o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, talvez porque, como afirma Robert Pyle, as crianças necessitam de espaços livres para jogar às escondidas, subir uma árvore, trepar as rochas, descobrir atalhos por entre o matagal. O contacto directo com os seres vivos (amoras, mirtilos, morangos, insectos, aves e mamíferos) e físicos (ar, solos, águas, rochas), afecta a criança de um modo que nenhuma experiência simbólica pode substituir. Porque a riqueza dessa relação estrutural modela e amplifica toda a riqueza multi-dimensional humana: o sentir em toda a sua gama de cambiantes (espanto, aversão, atracção, medo, afecto), o pensar (curioso, experimentalista ou meditativo), o comunicar, o criar.
«Falta hoje um sentido generalizado de intimidade com o mundo vivo»; uma intimidade que se funda na sensibilidade originária, participativa e comprometida com o mundo natural, desencadeada pela experiência viva e plena de alegria que todos sorvemos do seio da natureza e que, sem dúvida, concorrerá para a modelação de uma «vontade boa» capaz de agir em prol da natureza e das realidades não-humanas.
Maria José Varandas - excerto do artigo, “EDUCAR NA NATUREZA: A via de harmonização da sensibilidade e da moralidade na formação de uma consciência ambiental”, em pré-publicação na KAIROS, JOURNAL OF PHILOSOPHY AND SCIENCE, LISBOA: CENTRO DE FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS DA U. LISBOA
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Direito e Justiça Ambiental , LUCIANO ALVARENGA et al.
Um e-book composto de artigos que se centram na problemática ambiental sob o seu aspecto jurídico. Fundamental para professores, estudantes e para o cidadão consciente do grau de ameaça da crise ecológica:
https://www.academia.edu/7480233/Direito_e_justica_ambiental_dialogos_interdisciplinares_sobre_a_crise_ecologica
terça-feira, 16 de setembro de 2014
É DEMASIADO TARDE?
«Talvez esta
Terra não precise da nossa salvação, de qualquer modo pode ser que mais uma
vez, os seres humanos sejam resgatados no derradeiro acto , usando o seu
distintivo cérebro para endireitar as coisas. Porém, nós nem sequer possuímos o
maior cérebro das redondezas: essa honra vai para as baleias, algumas das quais
têm cérebros seis vezes maiores do que o nosso, com regiões inteiras de cortex
que ainda nem sequer começámos a entender. Por isso, pode ser, que se nós, de
facto , estamos a viver alguma espécie de drama global, não sejamos os heróis,
apesar de todas as odisseias espaciais e as nossas trepidantes cidades e tudo o
mais. Talvez apenas sejamos extras.
O papel mais adequado e circunspecto seria o de olhar para nós mesmos. Quem precisamos, REALMENTE, de salvar somos NÓS PRÓPRIOS. Eu não quero dizer com isto que precisamos simplesmente de cuidar da nossa salvação, embora isso não fosse má ideia. A nossa tarefa agora, com alguma consciência ecológica, é a de APRENDER A VIVER COMO CO-HABITANTES NESTE PLANETA.(...)
Precisamos de acabar com a destruição que pudermos - certamente. Reciclar e tudo o mais - certamente. Mas o trabalho a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Escutar os pássaros. Falar com os animais.. (...) Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras presenças, re-equacionar as nossas vidas.
É demasiado tarde?»
Anthony Weston. 1999. 'Is it too late?' in A. Weston ed., An Invitation to Environmental Philosophy, Oxford: Oxford University Press
O papel mais adequado e circunspecto seria o de olhar para nós mesmos. Quem precisamos, REALMENTE, de salvar somos NÓS PRÓPRIOS. Eu não quero dizer com isto que precisamos simplesmente de cuidar da nossa salvação, embora isso não fosse má ideia. A nossa tarefa agora, com alguma consciência ecológica, é a de APRENDER A VIVER COMO CO-HABITANTES NESTE PLANETA.(...)
Precisamos de acabar com a destruição que pudermos - certamente. Reciclar e tudo o mais - certamente. Mas o trabalho a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Escutar os pássaros. Falar com os animais.. (...) Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras presenças, re-equacionar as nossas vidas.
É demasiado tarde?»
Anthony Weston. 1999. 'Is it too late?' in A. Weston ed., An Invitation to Environmental Philosophy, Oxford: Oxford University Press
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
CONGRESSO PORTUGUES DE FILOSOFIA- COMUNICADO DA SPF
| https://www.youtube.com/watch?v=PLEJYJ1QxgU |
Congresso Português de Filosofia
Nos dias 5 e 6 de Setembro de 2014 realizou-se, na
Fundação Calouste Gulbenkian e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, o Congresso Português de Filosofia.
Neste congresso, além da Sociedade Portuguesa de
Filosofia, estiveram representadas a Associação Portuguesa de Filosofia
Fenomenológica, a Associação Portuguesa de Teoria do Direito, Filosofia do
Direito e Filosofia Social, o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, a Sociedade de Ética Ambiental e a
Sociedade Portuguesa de Filosofia Analítica. O congresso contou também com a
presença do presidente da ANPOF, a associação brasileira de pós-graduação em
Filosofia.
Na sessão de abertura estiveram presentes o presidente
da SPF, João Cardoso Rosas, e os presidentes de todas as associações que se
associaram ao evento: Irene Borges Duarte, José Sousa e Brito, José Esteves
Pereira, Maria José Varandas e Pedro Santos.
A SPF congratula-se com a presença de mais de 100
oradores, escolhidos em processo de revisão por pares a partir de mais de 200
propostas, de todas as áreas da Filosofia e de diversos países – especialmente
de Portugal, Brasil e Espanha. Foi ainda com particular satisfação que a SPF
viu reunidas num mesmo evento as diversas tendências e sensibilidades da
Filosofia tal como se pratica em Portugal.
A sessão plenária do dia 5 foi da responsabilidade de
Jacques Bouveresse, do Collège de France. Bouveresse apresentou uma comunicação
subordinada ao tema Verité, Veracité et Croyance, moderada por
Sofia Miguens (UP) e comentada por Marcelo Carvalho (ANPOF). O professor Gianni
Vattimo, que deveria ter feito a segunda comunicação plenária, não pôde
deslocar-se por motivo de doença.
Foram especialmente relevantes as mesas-redondas sobre
"O estado da arte do ensino universitário da Filosofia em Portugal",
moderada por Ricardo Santos (UE) e com a presença de António Martins (UC),
Carlos Morais (UCP), Marta Mendonça (UNL), Bernhard Sylla (UMinho) e João
Alberto Pinto (UP), e sobre "O estado da arte da investigação em
Filosofia em Portugal", moderada por José Lamego (UL) e com a presença de
Olga Pombo (UL – Centro de Filosofia das Ciências), António Martins (UC), José
Gama (UCP), Viriato Soromenho-Marques (UL-Centro de Filosofia) e José Meirinhos
(UP).
A Associação Portuguesa de Filosofia Fenomenológica, o
Instituto de Filosofia Luso-Brasileira e a Sociedade de Ética Ambiental
promoveram também sessões próprias dentro do congresso, sempre muito
participadas.
O PAINEL
DA SEA ERA CONSTITUÍDO PELOS PALESTRANTES VIRIATO SOROMENHO MARQUES, SOFIA VAZ,
COM A MODERAÇÃO DE MARIA JOSÉ VARANDAS. AS LÚCIDAS, RIGOROSAS E FUNDAMENTADAS
INTERVENÇÕES DOS ORADORES PROPORCIONARAM UM EXCELENTE MOMENTO DE
PROBLEMATIZAÇÃO E CLARIFICAÇÃO DO TEMA DO PAINEL- QUE FILOSOFIA EM TEMPO DE
CRISE ECOLÓGICA? – MUITO APLAUDIDO POR TODOS OS PRESENTES.
Um outro aspecto a relevar foi a entrega do Prémio de
Ensaio Filosófico da SPF, que este ano coube ao investigador André Santos
Campos, do Instituto de Filosofia da Universidade Nova. O prémio foi entregue
pela presidente do júri e pelo presidente da SPF.
A organização do Congresso Português de Filosofia
deseja agradecer a presença de todos e compromete-se a começar a trabalhar
desde já para que a reunião de toda a comunidade filosófica portuguesa volte a
ser possível no segundo congresso,
em 2016.
NOTA- BOLD E
ITÁLICO NOSSOS
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