sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Uma vida feita poesia feita natureza

Ninguém é pai de um poema sem morrer.
MB

Não que ele achasse, e sem rótulo (que ele não gostava e eu não gosto), mas a sua é uma poesia que namora com o ambiente, dado o respirar da terra que mora em suas escolhas para palavrear o que sentiu e pensou, viu e saboreou.

Morreu. Foi. Legou-nos tudo o que “amarrou no poste” (A gente nasce, cresce, amadurece, envelhece, morre. Para não morrer, tem que amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste.). E tudo é tanto. E tudo é belo.
Desde o dia 13 de novembro de 2014 que o sentido da sua vida se completou. E o sentido da sua poesia, esse, temo-lo aí, aqui mesmo. Basta ler. Sortudos – estendemos a mão e a alcançamos os livros de Manoel de Barros.

Manoel de Barros, poeta brasileiro, 1916-2014,
amou ser neste planeta.

Por exemplo, assim de repente:

Esse homem pois que apreciava as árvores de sons
amarelos- ele se merejava sobre a carne dos muros
e era ignorante como as águas.
Nunca sabia direito qual o período necessário para
um sapato ser árvore. Muito menos era capaz de
dizer qual a quantidade de chuvas que uma pessoa
necessita para que o lodo apareça em suas paredes.
De modo que se fechou esse homem: na pedra: como
ostra: frase por frase, ferida por ferida, musgo por musgo:
moda um rio que secasse: até de nenhuma ave
ou peixe. Até de nunca ou durante. E de ninguém
anterior. Moda nada.
_________

Borboleta morre verde em seu olho sujo de pedra.
O sapo é muito equilibrado pelas árvores.
Dorme perante polens e floresce nos detritos.
Apalpa bulbos com os seus dourados olhos.
Come ovo de orvalho. Sabe que a lua
Tem gosto de vaga-lume para as margaridas.
Precisa muito de sempre
Passear no chão. Aprende antro e estrelas.
(Tem dia o sapo anda estrelamente!)
Moscas são muito predominadas por ele.
Em seu couro a manhã é sanguínea.
Espera as falenas escorado em caules de pedra.
Limboso é seu entardecer.
Tem cios verdejantes em sua estagnação.
No rosto a memória de um peixe.
De lama cria raízes e engole fiapos de sol.
_______

- Difícil de entender, me dizem, é a sua poesia, o
senhor concorda?
- Para entender nós temos dois caminhos: o da
sensibilidade que é o entendimento do corpo; e o da
inteligência que é o entendimento do espírito.
Eu escrevo com o corpo
Poesia não é para compreender mas para incorporar
Entender é parede: procure ser uma árvore.
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Natureza é fonte primordial?
- Três coisas importantes eu conheço: lugar
apropriado para um homem ser folha; pássaro que se
encontra em situação de água; e lagarto verde que
canta de noite na árvore vermelha. Natureza é uma
força que inunda como os desertos. Que me enche
de flores, calores, insetos, e me entorpece até a
paradeza total dos reatores
Então eu apodreço para a poesia
Em meu lavor se inclui o Paracleto.
_______

Água, s. f.
Da água é uma espécie de remanescente quem já
Incorreu ou incorre em concha
Pessoas que ouvem com a boca no chão seus
Rumores dormidos pertencem das águas
Se diz que no início eram somente elas
Depois é que veio o murmúrio dos corgos para dar
Testemunho do nome de Deus
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Inseto, s.m.
Indivíduo com propensão a escória
Pessoa que se adquire da umidade
Barata pela qual alguém se vê
Quem habita os próprios desvãos
Aqueles a quem Deus gratificou com a sensualidade
(vide Dostoievski, Os irmãos Karamazov)
_______

Sol, s. m.
Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros
Diz-se que:
se a mulher espiar o seu corpo num ribeiro
florescido de sol, sazona
Estar sol: o que a invenção de um verso contém
_______

Pedra, s. f.
Pequeno sítio árido em que o lagarto de pernas
areientas medra (como à beira de um livro)
Indivíduo que tem nas ruínas prosperantes de sua
boca avidez de raiz
Designa o fim das águas e o restolho a que o homem
tende
Lugar de uma pessoa haver musgo
Palavra que certos poetas empregam para dar
concretude à solidão
_______

Árvore, s. f.
Gente que despetala
Possessão de insetos
Aquilo que ensina de chão
Diz-se de alguém com resina e falenas
Algumas pessoas em quem o desejo
é capaz de irromper sobre o lábio
como se fosse a raiz de seu canto
_______

Que pessoa você é?

Maria José Pessoa, 20 de novembro de 2014

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

IDENTIDADE E MORALIDADE

Um artigo de Nina Strohminger, psicóloga e neurocientista, sobre a relação  identidade e  consciência moral. Segundo a autora a construção e noção do eu baseia-se menos na diferença e na competição e mais na partilha e cooperação. «Quando escavamos fundo...encontramos uma constelação de capacidades morais...É isto que devemos cultivar ...se pretendemos realmente saber quem somos» shttp://aeon.co/magazine/philosophy/why-moral-character-is-the-key-to-personal-identity/

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A Medida do Sofrimento - para uma ética da alegria

In paths untrodden, (…)
Here by myself away from the clank of the world, (…)
Strong upon me the life that does not exhibit itself, yet contains all the rest,
Resolv’d to sing (…).
Walt Whitman, Calamus

(tradução da autora:)
Por caminhos inexplorados, (…)
Aqui a sós comigo, longe das grilhetas ruidosas do mundo, (…)
Sentindo em mim a vida que não se exibe e contudo tudo contém,

Decidi-me a cantar (…).

1.        
Os animais mostram-se muito mais satisfeitos com a mera existência do que nós.(…)
Ao animal falta tanto a ansiedade como a esperança, porque a sua consciência se restringe
ao que lhe é claramente evidente no presente: o animal é o presente encarnado.
Schopenhauer, Sobre o Sofrimento do Mundo


Vive connosco essa pergunta inicial e fatal: quem sou eu? Persegue-nos, acompanha-nos, desdobra-se, transforma-se, adormece, para depois despertar ainda mais plena de seiva.
Arranca-nos da rotina; coloca-nos na rotina: sacode-nos, embala-nos, enlouquece-nos.
Quem sou eu?
Ensaiamos soluções; praticamos respostas. E nunca nenhuma se mostra definitiva.
A dinâmica da existência, o devir que nos constitui, bafeja-nos com a alegre e trágica siamesa da vida que é a mudança. Heraclito bem o sabia. Outras são as águas ao reentrarmos no rio. Quem sou eu é algo que vai na corrente, que tem que aprender a nadar enquanto olha para si (tarefa impossível?), a querer-se compreender.
E que dizer desse rio?
E dos outros seres que me acompanham?

2.        
Se conseguirmos alhearmo-nos das nossas preocupações imediatas e encarar o mundo como um todo e o nosso lugar nele, veremos que existe algo absurdo na ideia de que as pessoas têm dificuldade em encontrar por que viver. Afinal, há tanto que precisa ser feito.
Peter Singer, Como havemos de viver?

Seja eu quem for, sou com os outros, em permanente relação, influência e condicionamento recíprocos. Coabito a Terra em parceria que – sei – deve evitar o conflito, a perturbação agressiva, o desequilíbrio que pode conduzir à morte – de espécies, de habitats, de culturas, do mundo natural, da nossa casa, nosso ecossistema.
O que precisa ser feito – por cada um de nós; por todos – é tomar consciência das consequências dos nossos gestos, das nossas atitudes e ações.
Se desconhecemos quem realmente somos (pois “um sentido nunca se completa enquanto há vida”1, é contudo certo que “estamos sempre dentro da nossa própria cabeça”2 e que “[o] que quer que sejamos (…) é como uma espécie de codificação que (…) se vê convocada para uma consciencialização, ou liberdade, que pode construir tudo outra vez.”3
A liberdade permite o erro e permite também a sua correção, a aprendizagem dos caminhos que conduzem ao bem ou ao mal, para que a escolha ocorra da forma desejada. Desejável.

3.        
[O] trabalho a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Falar com os animais. (…) Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras presenças, re-equacionar as nossas vidas.
Anthony Weston, Is it too late?

Sou um ser livre que deseja.
Desejo ter e criar prazer. Ou bem-estar. Ou felicidade.
Para Stuart Mill, felicidade é prazer e ausência de sofrimento. O princípio da maior felicidade afirma que esta é aquela que dá mais prazer e menos sofrimento ao maior número possível de pessoas.
Partindo deste (ainda que discutível) pressuposto, perguntamos: será a felicidade apenas atributo das pessoas humanas? Bem-estar e sofrimento são estados exclusivamente humanos? Posso ser feliz se os outros – humanos e não-humanos – o não forem? Viverei bem com o meu bem-estar se a meu lado alguém – pessoa ou (?) animal – estiver em sofrimento? Não sou eu um ser-em-relação, permanentemente em relação? E em relação, de que forma? Com base em que representação dos outros seres e de mim mesma?
Lancemos a provocação:
“Tanto para Singer como para Regan, seriam pessoas todos os primatas e, tendencialmente, todos os mamíferos com mais de um ano.”4
Sobre este tema-problema (definição do conceito de “pessoa”, na sua eventual oposição ao conceito de “animal”), apresentamos as seguintes posições (vide Anselmo Borges, Deus e o Sentido da Existência, Gradiva, Lisboa, 2011, p. 54):
- o predomínio, no Ocidente, da conceção kantiana que só reconhece direitos às pessoas humanas;
- o movimento animalista, que defende a tese de que há animais não humanos que são pessoas;
- a proposta de um modelo de sociedade que reconhece a dignidade dos humanos mas tem em atenção o valor dos animais;
o que requer argumentar em torno da noção de “pessoa” que cada indivíduo ou corrente tiver como sua. Assim, transcrevemos os seguintes excertos (in Anselmo Borges, op. cit.pp. 54/5:), na tentativa de avançar na opção por um modelo justo de conduta:
“Num texto famoso de 1789, Jeremy Bentham inquiria: Qual é a característica que confere o direito a uma consideração igualitária? E respondia, perguntando: «Será a faculdade da razão ou, talvez, do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um animal muito mais racional, assim como mais sociável, do que um recém-nascido de um dia, uma semana, ou até de um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não é: consegue raciocinar?, consegue falar?, mas: pode sofrer? »5 

O chamado utilitarismo moral coloca o centro precisamente na capacidade de sofrer e de sentir prazer. Para Peter Singer, defensor célebre desta concepção, os seres sensíveis têm interesses, concretamente o interesse do maior prazer possível e da menor dor possível, seguindo-se daí que, ao contrário da concepção anterior, temos deveres directos para com todos os seres capazes de sentir. (…) [E]screve textualmente, em ´´Etica Prática: «Devemos rejeitar a doutrina que coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior que matar um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem pode vir a ser uma pessoa.»
(…) A filósofa Adela Cortina, [em] Las fronteras de la persona, atravessa toda esta problemática para defender a sua tese[:] A vida é valiosa por si mesma, mas ainda mais a dos seres sensíveis, que têm a capacidade de sofrer e ter prazer. Os animais têm um valor intrínseco e não meramente instrumental, havendo, por isso, uma obrigação directa de não lhes causar dano.”
Retomando a posição utilitarista, verificamos que Singer “postula a igualdade de consideração ética para todos os seres sencientes (…). Assim, «se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificação moral para recusar ter o sofrimento em consideração. […] Se um ser não tem capacidade de sofrer ou de sentir alegria ou felicidade, não há nada6 para ser tido em conta. Logo, o limite da senciência7 […] é a única fronteira defensável para a preocupação pelos interesses dos outros.»”8
É também de referir que há “correntes biocêntricas e ecocêntricas da Ética Ambiental [que] pretendem alargar ainda mais o critério de consideração moral, reportando-o, respectivamente, ao fenómeno da vida e à noção de ecossistema.”9
Não posso, portanto, viver bem com a dor espalhada e espelhada à minha volta. Não posso aceitar senão o universal como princípio de conduta. O meu horizonte de ação é o mundo e o universo de seres vivos que o habitam. A maior, a única felicidade será a que, pelo menos, trouxer bem-estar a todos os entes sencientes. Aquela que os resgatar da dor que possam sentir. A que permitir da melhor forma que a diversidade de vida animal – e da Vida no seu todo - prolifere em natural equilíbrio. Ao proposto imperativo de Hans Jonas10 que proclama
«Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a Terra»,
acrescentaria, responsabilizando-nos:
«Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana que promova a permanência da diversidade e a felicidade das outras formas de vida sobre a Terra». 
Por sobre as intransponíveis (porque constitutivas) situações de sofrimento que qualquer forma de vida experiencia e saudavelmente procura evitar, sobressairia, então, aplicado este imperativo, o rosto da alegria, multifacetado na diversidade de vidas que a Vida alberga.

    4.  
[A] medida do sofrimento aumenta no homem muito mais que o gozo, o que é em grande parte realçado no facto de, na realidade, ele saber o que é a morte, enquanto o animal [não humano] apenas instintivamente foge dela sem de facto a conhecer e, portanto, sem a ter em vista, o que o homem, pelo contrário, tem sempre presente.
Schopenhauer, Sobre o Sofrimento do Mundo

Como escapar ao sofrimento, se ele nos constitui? (Não será ele a medida da ética?)
De que quero eu, humana, ser salva (curada, rendida, remediada, resgatada)? Do sofrimento? Isso conduzir-me-ia à impossibilidade de contactar com a realidade e à ignorância do que seria a alegria.
Disso, não quero ser salva (salvação exterior).
Disso, não quero salvar-me (salvação interior).
Quero a vida tal como ela é e eu posso melhorá-la (nós podemos melhorá-la).
Também não quero a eternidade. Quero completar o sentido da minha existência passando pela porta da morte (por essa porta que é a morte). Lá chegarei (lá, lugar; lá, tempo, instante). Consciente disso, percebo que esta casa onde vivemos a prazo é a minha e é a dos outros seres (os que já conheço e os que posso e quero vir a conhecer).
Há tanto a fazeri; há tanto a salvar, há muito a resgatar da aniquilação a que o espécime humano condenou.
Há todo um planeta a cuidar. É desejável mantê-lo, vivo e diverso. Pois a diversidade da vida antecedeu-nos e coube-nos em herança – a proteger.
Para isso, há que cuidar deste ser que vejo no passeio, ouço no ramo da árvore, liberto do cativeiro do zoo, devolvo à vida natural que é a sua, prescindo de incluir na minha alimentação, ajudo a perseverar no seu ser11.
Para tal, é forçoso enfrentar e ultrapassar as contradições e incongruências da minha conduta diária. Com algum sofrimento? Decerto; mas com muito, muito mais alegria.

Maria José Pessoa
novembro 2014 
­­­­­­­­­­­­­­­­­­______________________
1 José Maurício de Carvalho, http://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/revistaestudosfilosoficos/art3-rev5.pdf
2 Valter Hugo Mãe, Crónica «Autobiografia Imaginária» - “Pessoas”, in Jornal de Letras nº 1147, 17 a 30 de setembro de 2014
3 Ibidem
4 in Cristina Beckert, «Ética Animal: uma contradição nos termos?», in
Cristina Beckert (org. e coord.), ´´Etica Ambiental – uma ética para o futuro, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2003, nota 12, p.62
Proponho, para progredirmos na investigação deste tema, a seguinte definição de pessoa: sujeito que age de forma consciente, voluntária e intencional.
5 Sublinhado nosso  
6 Não há mesmo nada?
7 Senciência: capacidade de sentir, de perceber os efeitos das impressões sensíveis (ap. Dicionário Houaiss do Português Atual)
8 In Cristina Beckert, op. cit., pp. 56/7
9 Ibidem, nota 5 da p. 57
10 in Le Principe Responsabilité - Une Éthique pour la Civilisation Technologique, Éditions du Cerf, pp. 30-31 (cit. in Contextos – manual de Filosofia do 10º ano de escolaridade, Porto Editora, p. 162)
11 Albert Schweitzer, filósofo alemão e Prémio Nobel da Paz em 1952, considerava que todos os seres vivos possuíam uma will-to-live, uma vontade de viver que merece ser respeitada e preservada. Na obra Civilization and Ethics e referindo-se ao ser humano que vive o princípio da reverência pela vida, Schweitzer (1923) escreveu:
Se ele sair à rua após uma tempestade e vir uma minhoca que se perdeu, ele compreende que ela secará ao Sol se não alcançar rapidamente terra húmida onde rastejar, e então ele remove-a das pedras mortíferas e devolve-a à relva luxuriante. Se ele passar por um insecto que caiu numa piscina, dá-se ao trabalho de lhe fazer chegar uma folha ou galho no qual ele possa trepar e salvar-se.
Manuel Magalhães-Sant’Ana, “Consciência animal: para além dos vertebrados”, in Jornal de Ciências Cognitivas da Sociedade Portuguesa de Ciências Cognitivas
(http://jcienciascognitivas.home.sapo.pt/09-03_santana.html 

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i Como demonstração de que é possível fazer o tanto que precisa ser feito, sugiro a consulta do relato de um projeto já concretizado, com excelentes resultados:
Ana Maria Bettencourt e Manuel Carvalho Gomes, Nos Trilhos dos Açores – Educação para a Cidadania, Tinta da China, março de 2014. 

sábado, 25 de outubro de 2014

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A HIPÓTESE DA BIOFILIA - EDUCAR COM A NATUREZA

O tema da afinidade natural entre o ser humano e o seu envolvente natural é posto como hipótese de investigação por Edward Osborne Wilson na sua obra Biophilia (1984), tema que continua em The Biophilia Hypothesis (1993), obra editada com Stephen Kellert. Na esteira do evolucionismo cultural, a hipótese da biofilia de Wilson estabelece a vinculação inata entre o ser humano e as outras formas de vida não-humanas, fruto da co-evolução genes/cultura, e que, segundo o autor, carece de um input constante a partir do meio natural, ou seja, um conjunto rico e diversificado de experiências exploratórias em ambiente natural, que o cérebro humano vem preparado para processar tendo em vista o seu amplo e completo desenvolvimento. Também Stephen Kellert (da área de Ecologia Social) afirma a necessidade de actualização das tendências inatas biofílicas mediante a aprendizagem em contexto natural que contemple a multi-dimensionalidade das funções humanas - a necessidade de conhecimento, o apelo estético, o reforço da afectividade ou a expansão da criatividade e da imaginação. Analisando três formas de contacto com a natureza (directo - envolvimento físico em áreas naturais; indirecto - participação em naturezas planeadas como zoos, jardins botânicos, museus de História Natural; simbólico - representações audiovisuais da natureza), Kellert (2002) considera que apenas a natureza vivida directamente concorre para o pleno desenvolvimento psicossomático e para a formação de uma consciência ambiental. Segundo o autor, tanto o contacto com a natureza em zoos como, sobretudo, a visão passiva de realidades naturais em écrans de televisão carecem de estímulos que desafiem activa e amplamente as capacidades criativas espontâneas que favorecem o comportamento adaptativo. 
 A situação actual se, por um lado, mostra uma diminuição do contacto directo com a natureza de uma geração para outra (um estudo dirigido às mães revela que 71% delas brincaram ao ar livre na infância, contra os 31% das suas crianças que actualmente o fazem), por outro, indica uma progressiva habituação a ambientes ecologicamente degradados (rios poluídos, lixo, desaparecimento de áreas arborizadas na vizinhança) . 
Com efeito, a sociedade urbana, hoje em dia, opta cada vez mais por formas de contacto simbólico com o ambiente natural, mediante o qual a criança configura representações formais e supervisionadas de uma natureza meramente virtual, num processo de «extinção» da experiência que parece correr em paralelo com a extinção global da biodiversidade. E, embora, um leque amplo de literatura especializada, escorada em investigações que contemplam inúmeros casos-de-estudo, aponte com reincidência os benefícios das afiliações positivas com a natureza no bem-estar cognitivo, psicológico, emocional e espiritual dos seres humanos, o progressivo empobrecimento e destruição do ambiente continua e concorre perigosamente para a destruição da maturação bem sucedida das aquisições e construções psicológicas da criança. Para o psicólogo Peter Kahn a resolução de toda a problemática implicada nesta «amnésia geracional» de ambientes naturais ricos e biodiversos começa, justamente, pela própria infância: "Precisamos de comprometer as crianças numa educação ambiental construtivista a fim de maximizar a exploração e a interacção com a natureza que ainda existe ao seu alcance - insectos, animais domésticos, plantas, árvores, vento, chuva, solo, sol".
  Kellert sublinha o facto de ainda não se conhecerem, na sua total amplitude e a longo-prazo, os efeitos na maturação psico-cognitiva infantil de quotidianos pobres em estímulos apropriados e com escassas oportunidades de experiência directa no mundo natural. Pergunta Kellert, poderá o reforço substancial dos contactos indirectos ou simbólicos com a natureza substituir e, até, compensar a perda acelerada dos arrabaldes naturais próximos das habitações? O extraordinário aumento da informação tecnológica que proporciona o acesso a realidades naturais distantes e exóticas, ou o constante aperfeiçoamento no design de zoos e similares tendo em vista recriacções ‘fidedignas’ do habitats originais constituirão uma vantagem geracional efectiva? Até agora, as investigações que procuram dar resposta a estas questões têm mostrado que os efeitos positivos no conhecimento pessoal das realidades naturais experienciadas de forma indirecta são transitórios e raramente contribuem de forma significativa para o desenvolvimento emocional e cognitivo da criança, talvez porque, como afirma Robert Pyle, as crianças necessitam de espaços livres para jogar às escondidas, subir uma árvore, trepar as rochas, descobrir atalhos por entre o matagal. O contacto directo com os seres vivos (amoras, mirtilos, morangos, insectos, aves e mamíferos) e físicos (ar, solos, águas, rochas), afecta a criança de um modo que nenhuma experiência simbólica pode substituir. Porque a riqueza dessa relação estrutural modela e amplifica toda a riqueza multi-dimensional humana: o sentir em toda a sua gama de cambiantes (espanto, aversão, atracção, medo, afecto), o pensar (curioso, experimentalista ou meditativo), o comunicar, o criar. «Falta hoje um sentido generalizado de intimidade com o mundo vivo»; uma intimidade que se funda na sensibilidade originária, participativa e comprometida com o mundo natural, desencadeada pela experiência viva e plena de alegria que todos sorvemos do seio da natureza e que, sem dúvida,  concorrerá para a modelação de uma «vontade boa» capaz de agir em prol da natureza e das realidades não-humanas. 

 Maria José Varandas - excerto do artigo, “EDUCAR NA NATUREZA: A via de harmonização da sensibilidade e da moralidade na formação de uma consciência ambiental”, em pré-publicação na KAIROS, JOURNAL OF PHILOSOPHY AND SCIENCE, LISBOA: CENTRO DE FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS DA U. LISBOA

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Direito e Justiça Ambiental , LUCIANO ALVARENGA et al.

Um e-book composto de artigos que se centram na problemática ambiental sob o seu aspecto jurídico. Fundamental para professores, estudantes e para o cidadão consciente do grau de ameaça da crise ecológica: https://www.academia.edu/7480233/Direito_e_justica_ambiental_dialogos_interdisciplinares_sobre_a_crise_ecologica

terça-feira, 16 de setembro de 2014

É DEMASIADO TARDE?




«Talvez esta Terra não precise da nossa salvação, de qualquer modo pode ser que mais uma vez, os seres humanos sejam resgatados no derradeiro acto , usando o seu distintivo cérebro para endireitar as coisas. Porém, nós nem sequer possuímos o maior cérebro das redondezas: essa honra vai para as baleias, algumas das quais têm cérebros seis vezes maiores do que o nosso, com regiões inteiras de cortex que ainda nem sequer começámos a entender. Por isso, pode ser, que se nós, de facto , estamos a viver alguma espécie de drama global, não sejamos os heróis, apesar de todas as odisseias espaciais e as nossas trepidantes cidades e tudo o mais. Talvez apenas sejamos extras.
O papel mais adequado e circunspecto seria o de olhar para nós mesmos. Quem precisamos, REALMENTE, de salvar somos NÓS PRÓPRIOS. Eu não quero dizer com isto que precisamos simplesmente de cuidar da nossa salvação, embora isso não fosse má ideia. A nossa tarefa agora, com alguma consciência ecológica, é a de APRENDER A VIVER COMO CO-HABITANTES NESTE PLANETA.(...)
Precisamos de acabar com a destruição que pudermos - certamente. Reciclar e tudo o mais - certamente. Mas o trabalho a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Escutar os pássaros. Falar com os animais.. (...) Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras presenças, re-equacionar as nossas vidas.
É demasiado tarde?»

Anthony Weston. 1999. 'Is it too late?' in A. Weston ed.,  An Invitation to Environmental Philosophy, Oxford: Oxford University Press




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CONGRESSO PORTUGUES DE FILOSOFIA- COMUNICADO DA SPF

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Congresso Português de Filosofia

A SEA, em colaboração com outras associações científicas, irá cooperar na organização do Congresso Português de Filosofia, que decorrerá na Fundação Calouste Gulbenkian e na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, nos dias 5 e 6 de Setembro de 2014.
Mais Info: http://congressoportuguesdefilosofia.weebly.com/